domingo, 22 de junho de 2008

"NOS BRAÇOS MEUS DESCANSARÁS, FORÇAS TE DAREI..."


Feriadão de São João... E eu trabalhando no domingo e na terça... Tudo bem, já cheguei do hospital, o dia nem foi tão pesado, vamos em frente!

A única notícia triste do dia foi a morte do meu paciente, seu Guilherme. Isso me deixou muito deprê... Já perdi outros pacientes, mas esse foi um pelo qual eu lutei bastante... Quando meu rodízio do Barão começou ele era um caquinho, só vivia dormindo, com hipertensão, diabetes descompensada, insuficiência cardíaca, vasculopatia periférica... Eu insisti na recuperação dele durante todo esse tempo. Convenci a filha dele a autorizar a amputação da perna esquerda (por problemas decorrentes da diabetes), dei todo o apoio que eu podia. Seu Guilherme melhorou radicalmente depois da cirurgia, permanecia acordado, conversava comigo quando eu ia vê-lo. Pegou uma pneumonia e por isso precisou passar mais 14 dias no hospital, tomando antibióticos. Nesse meio tempo, descobrimos que ele estava com um câncer na bexiga, mas nada que não pudesse ser tratado, inclusive já havíamos agendado consulta com um urologista, assim que ele tivesse alta. Saí do hospital na sexta-feira às 7 da noite e seu Guilherme ficou lá, bem melhor da tosse, quase sem catarro, o pulmão não chiava mais, sem episódios de hipoglicemia, apenas com um sangramento na ferida operatória, mas que a cirurgiã vascular tinha olhado e não achou que pudesse ser preocupante. Eu já tinha até preparado a alta dele!

Hoje cheguei no Barão e algo me dizia que eu deveria ir lá, ver seu Gulherme. Ele não estava na lista de pacientes que eu deveria avaliar, mas queria vê-lo, perguntar como ele estava. Encontrei o leito de seu Guilherme vazio, com o colchão revirado. Fui perguntar à enfermeira e ouvi a notícia: "Ah, ele foi a óbito!". Como assim??? Quando??? De que jeito??? E a filha dele??? Ninguém soube dizer detalhes, apenas falaram que ele tinha morrido na madrugada do sábado, que foi uma agonia naquela enfermaria e que a filha dele ficou desesperada, perguntando o motivo de terem deixado o pai dela morrer assim... Fiquei tão triste!... Até mesmo por não estar lá no momento da morte, pra dar uma força. Se bem que Deus sabe o que faz, talvez não fosse uma boa idéia, talvez eu não soubesse como ajudar...

O fato é que seu Guilherme morreu. Uma pena isso de a medicina não conseguir resolver certas coisas. Tenho outra paciente, Solange, de 37 anos, que está com câncer de ovário e metástase pra todos os lados (eu disse que o Barão é um inferno...). Solange pode morrer a qualquer momento, e isso vai ser até um alívio pra ela, porque a coitada sofre de dores incontroláveis... Se eu tivesse chegado e recebido a notícia de que Solange tinha morrido, não iria ficar tão mal: infelizmente o câncer avançado é uma estrada que termina inevitavelmente desse jeito. Mas seu Guilherme tinha insuficiência cardíaca, diabetes e hipertensão. Quantos capítulos de livro existem sobre essas doenças? Quantas e quantas vezes eu já estudei esses assuntos? Todos os dias representantes farmacêuticos batem na porta da sala dos residentes para mostrar novos medicamentos capazes de controlar os sintomas dessas enfermidades. A glicose do sangue de seu Guilherme estava controlada. A ferida operatória da coxa esquerda não tinha sinais de infecção. A pneumonia por uma bactéria complexa também estava sendo combatida com os antibióticos oferecidos pelo hospital. O que fez seu Guilherme morrer? O que faltou na assistência dele? O que passou despercebido aos nossos olhos e terminou por levá-lo?

De certa forma - e isso eu posso dizer por experiência própria - agora a filha dele vai poder descansar um pouco. Acompanhar um paciente crítico no hospital é tarefa das mais difíceis. Tenho certeza de que só agora ela vai perceber que está muito cansada. Acredito que seu Guilherme também estava muito cansado de lutar contra tudo aquilo. Talvez Deus tenha dito (como disse a papai, tenho certeza): "Pronto, filho, venha comigo, chegou a hora. Agora seu sofrimento acabou". E então agora ele pode descansar em paz.

Vir a ser médica tem dessas coisas difíceis. Mas sei que fiz tudo por seu Guilherme e aprendi muito com ele. Essa sensação é a recompensa, porque todos nós vamos morrer, é preciso ter consciência disso e saber que só Deus escolhe o dia e a hora, independente do que façamos. Se Ele quis que fosse assim, então, sigamos em frente!

Mas é São João, ok? Bom forrozão pra todo mundo!


3 comentários:

Monica disse...

Coisas da vida, né?!?

Bom São João, querida!!!!!

Luciana Cavalcanti disse...

Bonita reflexão, embora triste!!!
Mas, sigamos em frente, minha amiga médica sabida e sensível!!! :)

mar disse...

aprendizados da medicina a cada dia neh? bj
(e nem fale de sao joao que ainda nao me recuperei de não tê-lo esse ano...)