sexta-feira, 28 de novembro de 2008

INVOCAÇÃO À SAUDADE


Oh! filha melancólica dos ermos,

Consolo extremo, e amiga no infortúnio

Fiel e compassiva;

Saudade, tu que única inda podes

Nest'alma, erma de amor e de esperança,

Um som vibrar melodioso e triste,

Qual vento, que murmura entre ruínas,

Os gemebundos ecos acordando;

Vem, ó saudade, vem; - a ti consagro

De minha lira as magoadas cordas.

Quando o sopro da sorte impetuoso

Nos ruge n'alma, e para sempre a despe

Do pouco que há de amável na existência;

Quando tudo se esvai, - ledos sorrisos,

Suaves ilusões, prazeres, sonhos,

Ventura, amor, e até a mesma esp'rança,

Só tu, meiga saudade,

Fiel amiga, jamais nos abandonas!

Jamais negas teu bálsamo piedoso

Às chagas do infortúnio!

Qual de remotas, flóridas campinas

Da tarde a branda aragem

Nas asas nos conduz suave aroma,

Assim tu, ó saudade,

Em quadras mais ditosas vais colhendo

As risonhas visões, doces lembranças,

Com que vens afagar-nos,

E ornas do presente as sendas nuas

Co'as flores do passado.

Não, não é dor o teu pungir suave,

É um triste cismar que tem delícias,

Que o fel aplaca, que nos ferve n'alma,

E o faz correr banhando áridos olhos,

Em mavioso pranto convertido.

No íntimo do peito

Despertas emoções que amargam, pungem,

Mas fazem bem ao coração, que sangra

Entre as garras de austero sofrimento!

(Invocação à Saudade - Bernardo Guimarães)

Valeu, Gil! Vai em paz!

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